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Identidade digital: riscos e soluções atuais para proteger pessoas e empresas

Identidade digital: riscos e soluções atuais para proteger pessoas e empresas

Como a identidade digital é criada, quais são os principais riscos (fraude, roubo de conta, privacidade) e quais soluções atuais podem proteger pessoas e empresas.

Identidade digital: riscos e soluções atuais

Quase tudo o que fazemos hoje deixa um rasto digital: login em aplicações, compras online, assinatura de contratos, acesso a serviços públicos, utilização de redes sociais e até autenticação em dispositivos corporativos. A soma destes dados e credenciais forma aquilo a que chamamos identidade digital.

Ao mesmo tempo que ela facilita a vida de pessoas e empresas, também se tornou um alvo extremamente valioso para criminosos. Fraudes com documentos, roubo de contas, engenharia social e vazamentos em massa de dados pessoais mostram, na prática, que proteger identidades digitais é uma prioridade estratégica — não apenas um detalhe técnico.

Neste artigo, vamos entender:

  • O que é identidade digital na prática;
  • Quais são os principais riscos hoje;
  • As soluções atuais para reduzir esses riscos;
  • Um checklist para organizações que querem dar o próximo passo.

1. O que é identidade digital, afinal?

Identidade digital é o conjunto de informações, credenciais e atributos que permitem que sistemas e serviços reconheçam uma pessoa (ou empresa) no mundo online. Ela pode incluir:

  • Dados de registo: nome, CPF/CNPJ, e-mail, telefone, morada;
  • Credenciais de acesso: logins, palavras-passe, tokens, certificados, passkeys;
  • Documentos oficiais em formato digital (como carteiras digitais e identidades nacionais);
  • Atributos comportamentais: padrão de navegação, localização típica, dispositivo, horário de acesso;
  • Registos de consentimento e configurações de privacidade.

Essa identidade pode ser gerida por diferentes atores:

  • Governos, com identidades digitais oficiais (como a nova Carteira de Identidade Nacional em formato físico e digital no Brasil, integrada ao ecossistema Gov.br);
  • Empresas privadas, que mantêm contas de clientes, credenciais de acesso e históricos de utilização;
  • Plataformas de identidade (Identity Providers – IdPs), que fazem autenticação e federação de logins entre diversos sistemas.

Quanto mais serviços são ligados à mesma identidade digital, maior a conveniência para o utilizador — e maior também o impacto em caso de fraude ou comprometimento.

2. Principais riscos ligados à identidade digital

2.1 Roubo de credenciais e sequestro de contas

O risco mais visível é o roubo de credenciais: alguém obtém login e palavra-passe (ou mesmo tokens fracos de autenticação) e passa a fazer-se passar pela vítima. Entre as técnicas mais comuns estão:

  • Phishing e variantes (smishing, vishing): páginas falsas ou mensagens convincentes para roubar palavras-passe e códigos de SMS;
  • Vazamentos de dados em massa noutras plataformas, explorando reutilização de palavras-passe;
  • Malware que captura teclas digitadas, cookies de sessão ou tokens de autenticação.

Uma vez controlada a conta, o atacante pode:

  • Alterar dados de contacto e bloquear o acesso do titular;
  • Realizar transações financeiras indevidas;
  • Assinar serviços, aceitar termos ou consentimentos em nome da vítima;
  • Aceder a outras contas ligadas (single sign-on, social login, integrações de APIs).

2.2 Fraude de identidade e documentos

A digitalização de documentos de identidade trouxe conveniência, mas também novos vectores de fraude. Criminosos usam dados vazados, imagens, capturas de ecrã e até técnicas avançadas de falsificação para:

  • Abrir contas bancárias ou linhas de crédito em nome de terceiros;
  • Registar cartões SIM para aplicar golpes;
  • Emitir contratos, financiamentos ou compras a prestações usando dados roubados.

A combinação de documentos digitais, selfies, deepfakes e dados pessoais obtidos em vazamentos cria um cenário desafiante: torna-se cada vez mais difícil distinguir entre um utilizador legítimo e uma identidade falsa ou sintética.

2.3 Privacidade e perfilização excessiva

Identidade digital não é apenas “fazer login em sistemas”. Em muitos casos, ela concentra um histórico detalhado de tudo o que o utilizador faz: páginas acedidas, preferências, geolocalização, comportamento de compra, interações em aplicações, etc.

Sem governação adequada, isso leva a riscos como:

  • Perfilização excessiva de consumidores sem transparência;
  • Uso indevido de dados para fins não informados;
  • Vazamentos de informações extremamente sensíveis, que podem ser exploradas em golpes de engenharia social.

Para organizações que tratam dados pessoais, isto é um ponto de atenção directo com a LGPD e o GDPR, que exigem transparência, minimização de dados e segurança adequada.

2.4 Ataques de engenharia social e SIM swap

Muitos mecanismos de “recuperação de conta” ainda dependem de SMS, chamadas telefónicas ou perguntas de segurança frágeis. Isso abre espaço para ataques como:

  • SIM swap: o criminoso convence a operadora a transferir o número de telefone da vítima para outro cartão, interceptando códigos de autenticação e redefinição de palavra-passe;
  • Engenharia social directa: contacto com o utilizador ou com a central de atendimento para obter acesso com base em informações públicas ou vazadas.

Nestes casos, o problema não é apenas a tecnologia, mas a combinação de processos frágeis com formação insuficiente de equipas e falta de validações adicionais.

2.5 Dependência excessiva de um único fornecedor de identidade

Modelos de login social ou federação de identidade (por exemplo, “Entrar com X”) trazem conveniência e, muitas vezes, segurança adicional. Mas também criam riscos de:

  • Ponto único de falha: se a conta raiz for comprometida, vários serviços associados ficam em risco;
  • Dependência estratégica: mudanças nas políticas do fornecedor podem impactar directamente a experiência de utilizadores e a segurança;
  • Perda de controlo sobre o fluxo de dados pessoais partilhados.

3. Soluções atuais para proteger identidades digitais

A boa notícia é que, ao mesmo tempo que os riscos cresceram, também evoluíram as soluções disponíveis. Abaixo, um panorama das principais frentes.

3.1 Autenticação forte e MFA centradas no risco

O primeiro passo é sair do modelo “utilizador + palavra-passe” isolado e adoptar autenticação forte, combinando pelo menos duas das três categorias:

  • Algo que você sabe (palavra-passe, PIN);
  • Algo que você tem (token, dispositivo, chave física);
  • Algo que você é (biometria, impressão digital, rosto, voz).

Aqui entram:

  • Aplicações autenticadoras (TOTP);
  • Tokens físicos (chaves de segurança, smartcards);
  • Push notifications em apps corporativos;
  • Biometria local nos dispositivos (impressão digital, reconhecimento facial).

Modelos mais modernos adoptam MFA adaptativo, ajustando o nível de verificação ao risco da sessão (novo dispositivo, país, valor da transação, horário incomum, etc.).

3.2 Passkeys e autenticação resistente a phishing

Uma das tendências mais fortes hoje é a adopção de passkeys e padrões de autenticação baseados em FIDO2/WebAuthn. Em vez de palavras-passe reutilizáveis, o utilizador passa a ter credenciais criptográficas ligadas ao dispositivo e ao domínio legítimo do serviço.

Na prática, isso traz vantagens importantes:

  • Redução drástica do risco de phishing, já que as chaves não funcionam em sites falsos;
  • Eliminação de palavras-passe fracas ou reutilizadas entre serviços diferentes;
  • Experiência mais simples para o utilizador, que pode autenticar com biometria ou PIN no próprio dispositivo;
  • Menos dependência de SMS e e-mail como segundo factor.

Para empresas, migrar gradualmente para passkeys e credenciais resistentes a phishing significa elevar o patamar de proteção de identidade dos utilizadores sem aumentar a fricção de uso.

3.3 Identidades digitais oficiais e carteiras de documentos

Vários países estão a evoluir para modelos de identidade digital oficial, muitas vezes associando um documento único a uma identidade reconhecida nacionalmente.

No caso brasileiro, por exemplo, a Carteira de Identidade Nacional (CIN) adopta o CPF como número único e pode ser emitida em formato físico ou digital. A CIN é integrada ao ecossistema Gov.br e utiliza recursos como QR Code e validação online para reduzir fraudes de identidade e facilitar o acesso a serviços públicos.

Além disso, iniciativas de carteiras digitais de documentos centralizam diferentes credenciais (como identidade, carta de condução e outros documentos) numa única aplicação. Quando bem implementadas, essas carteiras:

  • Tornam mais difícil a falsificação de documentos;
  • Facilitam a verificação de autenticidade por terceiros;
  • Podem ser integradas a serviços privados (bancos, operadoras, plataformas digitais) com mais segurança.

O desafio é garantir que essa centralização seja feita com privacidade por padrão, controlos de acesso robustos e transparência sobre o uso das informações.

3.4 Verificação de identidade e prova de vida mais robustas

Na abertura de contas e em processos de alto risco (como crédito, activação de cartões SIM ou acesso a serviços sensíveis), as empresas têm adoptado soluções de:

  • Onboarding digital com validação documental (OCR, leitura de MRZ, validação em bases oficiais);
  • Biometria com prova de vida (liveness detection) para evitar uso de fotos, vídeos ou deepfakes;
  • Análise de risco em tempo real, combinando dados de dispositivos, localização, histórico de fraudes e comportamento.

Esse tipo de abordagem vai além do “upload de documento” e passa a avaliar o contexto completo da identidade digital, dificultando fraudes sofisticadas.

3.5 Governança, LGPD/GDPR e princípios de privacidade

Não existe proteção de identidade digital sem governação de dados pessoais. Para organizações que tratam informações de clientes, colaboradores ou cidadãos, alguns pontos são essenciais:

  • Minimização de dados: recolher apenas o necessário para a finalidade declarada;
  • Base legal clara: entender quando se apoia em consentimento, contrato, obrigação legal, interesse legítimo, etc.;
  • Registos de consentimento e possibilidade de revogação;
  • Segurança técnica e organizacional: criptografia, controlos de acesso, monitorização, resposta a incidentes;
  • Transparência com titulares sobre como a sua identidade digital é utilizada.

Leis como a LGPD e o GDPR não apenas exigem proteção adequada, mas também pressionam organizações a estruturar processos, documentar decisões e comprovar diligência em caso de incidentes.

3.6 Educação dos utilizadores e cultura de segurança

Por fim, nenhuma solução técnica é suficiente se as pessoas não estiverem preparadas. Boas iniciativas incluem:

  • Campanhas contínuas sobre golpes de phishing, engenharia social e fraudes mais comuns;
  • Orientação para uso de gestores de palavras-passe, actualização de dispositivos e cuidado com partilha de dados;
  • Formação específica para equipas de atendimento e suporte, evitando que processos frágeis viabilizem ataques.

4. Checklist prático para empresas

Se a sua organização quer reforçar a proteção de identidade digital de clientes e colaboradores, use este checklist como ponto de partida:

  1. Mapear identidades e pontos de autenticação
    • Quais sistemas fazem login de utilizadores internos e externos?
    • Quais dados pessoais e credenciais são tratados em cada um?
  2. Rever mecanismos de autenticação
    • Ainda existem logins apenas com utilizador + palavra-passe?
    • Onde é possível adoptar MFA forte e, gradualmente, passkeys ou FIDO2?
  3. Fortalecer processos de recuperação de conta
    • Eliminar perguntas de segurança fracas;
    • Reduzir dependência exclusiva de SMS e e-mail;
    • Adicionar validações adicionais em acções de alto risco.
  4. Integrar verificação de identidade em fluxos críticos
    • Onboarding de novos clientes;
    • Concessão de crédito, aumento de limite, alteração de dados sensíveis;
    • Activação de novos dispositivos ou factores de autenticação.
  5. Alinhar segurança de identidade com LGPD/GDPR
    • Rever bases legais, políticas de privacidade e registos de actividade;
    • Garantir minimização e limitação de finalidade no uso de dados de identidade.
  6. Monitorizar e responder a incidentes
    • Detectar tentativas de login suspeitas, padrões de ataque e anomalias;
    • Ter um plano de resposta a incidentes que inclua comunicação com titulares e autoridades, quando necessário.
  7. Investir em educação e cultura
    • Formar equipas internas sobre riscos de identidade digital;
    • Comunicar boas práticas de forma simples para clientes e utilizadores finais.

5. Conclusão: identidade digital como ativo crítico

A identidade digital é, hoje, uma espécie de “nova chave mestra” da vida online. Ela abre portas para serviços financeiros, benefícios públicos, saúde, educação, trabalho e praticamente qualquer interação digital relevante.

Por isso, tratar identidade digital apenas como um detalhe de login é um erro perigoso. É preciso encará-la como um activo crítico, que exige:

  • Tecnologia adequada (MFA forte, passkeys, verificação de identidade, monitorização);
  • Processos maduros (governação, LGPD/GDPR, resposta a incidentes);
  • Pessoas preparadas (utilizadores conscientes e equipas treinadas).

Organizações que investem desde cedo numa estratégia robusta de identidade digital não apenas reduzem fraudes e riscos regulatórios, como também constroem mais confiança com os seus utilizadores — um diferencial competitivo num mundo onde confiança é cada vez mais rara.

Dica extra: se a sua empresa está a estruturar governação de dados pessoais e identidade digital, considere plataformas que centralizem o controlo de consentimentos, registos de tratamento e provas de conformidade, facilitando a vida de quem precisa conciliar segurança, privacidade e experiência do utilizador.

Assuma o controlo dos seus dados pessoais.

Gerencie consentimentos e preferências com transparência – em conformidade com LGPD/RGPD.

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