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Como a criptografia protege dados em trânsito

Como a criptografia protege dados em trânsito

  • Autor: Unova Team
  • Publicado em: 05 Dez, 2025
  • Categoria: Criptografia

Perceba o que são dados em trânsito, que riscos enfrentam nas redes e como a criptografia (TLS/HTTPS, VPN e cifragem ponto a ponto) protege informações sensíveis.

Como a criptografia protege dados em trânsito

Quando falamos em segurança da informação, é comum pensar em antivírus, firewall e palavras-passe fortes. Mas existe um momento crítico em que os dados ficam especialmente expostos: enquanto estão “a viajar” na rede, a sair de um dispositivo e a chegar a outro. É o que chamamos de dados em trânsito.

Formulários em sites, transações financeiras, APIs, mensagens de chat, e-mails corporativos, integrações entre sistemas… tudo isto envolve dados que saem de um ponto A e chegam a um ponto B. Se esse caminho não estiver protegido, um atacante pode intercetar, alterar ou copiar essas informações.

É aqui que entra a criptografia em trânsito: cria um “túnel seguro” entre as pontas da comunicação, dificultando a vida de quem tenta espiar o tráfego. Neste artigo, vamos perceber:

  • O que são dados em trânsito e porque são tão apetecíveis;
  • Os principais riscos em redes locais, internet e Wi-Fi público;
  • Como a criptografia (TLS/HTTPS, VPN, cifragem ponto a ponto) protege esse tráfego;
  • Boas práticas e um checklist para empresas que querem elevar o nível de proteção.

1. O que são dados em trânsito?

De forma simples, dados em trânsito são informações que estão a ser transmitidas entre sistemas, dispositivos ou serviços. Alguns exemplos típicos:

  • Acessa ao homebanking pelo browser e o saldo da sua conta é enviado do servidor para o seu computador;
  • Uma aplicação móvel envia as suas credenciais para uma API de autenticação;
  • Dois microserviços comunicam entre si numa arquitetura em nuvem;
  • Um colaborador acede ao sistema da empresa através de um Wi-Fi público no aeroporto;
  • Um sistema interno envia logs para uma solução de observabilidade na nuvem.

Esses dados saem de um ponto, percorrem uma rede (local, internet, VPN, etc.) e chegam ao destino. Durante esse percurso, podem passar por vários routers, switches, proxies, firewalls e outros equipamentos. Se o tráfego não estiver protegido, qualquer ponto intermédio comprometido — ou uma rede mal configurada — pode tornar-se uma janela de espionagem.

2. Porque é que os dados em trânsito são tão visados?

Do ponto de vista de um atacante, intercetar dados em trânsito pode ser mais “simples” do que invadir diretamente um servidor ou base de dados. Alguns motivos:

  • Redes Wi-Fi abertas ou mal configuradas expõem o tráfego de utilizadores desprevenidos;
  • Dispositivos comprometidos (routers, proxies, switches) podem espelhar o tráfego para o atacante;
  • Ferramentas de captura de pacotes (sniffers) permitem observar tudo o que circula numa rede sem proteção;
  • Ataques de Man-in-the-Middle (MITM) conseguem posicionar-se entre o utilizador e o serviço, fingindo ser um para o outro.

Num cenário sem criptografia, isto significa acesso direto a:

  • Nome de utilizador e palavra-passe introduzidos em formulários;
  • Números de cartão de crédito e dados bancários;
  • Tokens de sessão e cookies de autenticação;
  • Documentos, mensagens e ficheiros enviados pela rede.

Mesmo dentro de uma rede corporativa, assumir que “a rede interna é segura” é um erro perigoso. Ameaças internas, dispositivos comprometidos e acessos indevidos podem explorar tráfego interno não cifrado.

3. Principais riscos para dados em trânsito

3.1 Sniffing de rede

Sniffing é a prática de capturar pacotes de dados que passam pela rede. Em redes sem criptografia (ou com protocolos antigos, como HTTP simples ou FTP), o atacante consegue:

  • Ler conteúdo de pedidos e respostas em texto simples;
  • Identificar credenciais, números de documentos e informações sensíveis;
  • Mapear que sistemas e serviços estão a ser usados.

Ferramentas para este tipo de captura são amplamente conhecidas e disponíveis. Por isso, dados a circular sem proteção são um alvo fácil.

3.2 Wi-Fi público e redes desconhecidas

Ligar-se a um Wi-Fi público (aeroportos, cafés, hotéis) ou a redes desconhecidas é um risco clássico. Em muitos casos, o tráfego interno da rede não é isolado, o que permite que:

  • Outros utilizadores da mesma rede monitorizem o tráfego de quem está ligado;
  • Um atacante monte um ponto de acesso falso a imitar a rede oficial;
  • Pacotes sejam encaminhados por equipamentos mal configurados ou comprometidos.

Se o utilizador acede a serviços sem criptografia adequada, o risco de exposição é elevado.

3.3 Ataques de Man-in-the-Middle (MITM)

Num ataque de Man-in-the-Middle, o atacante coloca-se entre o cliente e o servidor, fazendo com que:

  • O utilizador ache que está a falar com o servidor legítimo;
  • O servidor ache que está a falar com o utilizador legítimo;
  • No meio, o atacante leia, altere ou registe todo o tráfego.

Sem criptografia adequada e validação de identidade (como certificados de confiança), é difícil detetar este tipo de ataque. Em alguns cenários, o atacante ainda tenta forçar o downgrade da ligação para protocolos menos seguros ou remover a camada de criptografia (SSL stripping).

3.4 Protocolos antigos e configurações fracas

Mesmo quando existe criptografia, protocolos antigos ou mal configurados podem comprometer a proteção. Exemplos:

  • Uso de versões obsoletas de SSL/TLS (como SSLv3 e TLS 1.0/1.1);
  • Suporte a suites de cifragem fracas ou algoritmos já quebrados;
  • Falta de verificação adequada de certificados, permitindo ligações com certificados falsos.

Nestes casos, um atacante pode explorar vulnerabilidades conhecidas ou enganar o cliente para aceitar ligações não confiáveis.

4. Como a criptografia protege dados em trânsito?

A resposta central é: criando canais de comunicação cifrados, autenticados e, quando possível, ancorados numa cadeia de confiança. Os principais exemplos são:

  • TLS/HTTPS (para web, APIs e vários protocolos de aplicação);
  • VPN (para criar túneis seguros sobre redes inseguras);
  • Cifragem ponto a ponto (E2EE) em mensagens e comunicações;
  • TLS entre serviços em arquiteturas de microserviços.

4.1 TLS e HTTPS: o padrão da web segura

Quando vê o cadeado no browser e o endereço começa por https://, significa que a ligação está a usar TLS (Transport Layer Security). De forma simplificada, o que acontece é:

  1. O browser liga-se ao servidor e pede para iniciar uma sessão segura;
  2. O servidor apresenta um certificado digital, emitido por uma autoridade certificadora de confiança;
  3. O browser valida esse certificado (cadeia de confiança, validade, domínio);
  4. Cliente e servidor negociam algoritmos e trocam segredos de forma segura, geralmente usando criptografia assimétrica para estabelecer uma chave simétrica de sessão;
  5. A partir daí, o tráfego passa a ser cifrado com criptografia simétrica (rápida e eficiente) usando a chave partilhada.

Com isto, mesmo que alguém capture os pacotes na rede, verá apenas dados cifrados — sem acesso direto ao conteúdo. Além disso:

  • A validação do certificado ajuda a garantir que está a falar com o servidor correto;
  • Mecanismos adicionais (como HSTS) dificultam ataques que tentam forçar o uso de HTTP não seguro.

4.2 VPN: criar um túnel seguro sobre redes inseguras

Uma VPN (Virtual Private Network) cria um túnel cifrado entre o dispositivo do utilizador e uma rede remota (como a rede da empresa). Esse túnel:

  • Encapsula todo o tráfego (ou parte dele) dentro de um “envelope” cifrado;
  • Protege os dados mesmo em redes Wi-Fi públicas ou ambientes hostis;
  • Permite que o utilizador aceda a recursos internos como se estivesse fisicamente na rede corporativa.

Protocolos modernos de VPN usam cifragem forte (como AES, ChaCha20) e combinam chaves simétricas e assimétricas para estabelecer e manter o canal seguro. Isto reduz drasticamente o risco de sniffing e MITM em redes intermédias.

4.3 Cifragem ponto a ponto (E2EE)

Na cifragem ponto a ponto, os dados são cifrados no dispositivo de origem e apenas descifrados no dispositivo de destino. Nem mesmo o servidor intermédio tem acesso ao conteúdo em texto simples.

Este modelo é usado em várias aplicações de mensagens seguras e chamadas de voz/vídeo. Vantagens:

  • Mesmo que o servidor seja comprometido, o atacante não tem acesso direto ao conteúdo das mensagens;
  • Reduz o risco de intercetação por intermediários ao longo do percurso;
  • Reforça a privacidade dos utilizadores e a confiança na plataforma.

A E2EE combina criptografia assimétrica (para troca de chaves entre utilizadores) e criptografia simétrica (para proteger o conteúdo de cada mensagem, de forma eficiente).

4.4 TLS entre serviços e APIs

Não é apenas o tráfego entre utilizador e site que precisa de proteção. Em ambientes de nuvem e microserviços, é fundamental cifrar também:

  • Comunicação entre APIs internas e externas;
  • Integrações com parceiros e terceiros;
  • Tráfego entre serviços em clusters e contentores.

Aqui, o uso de mTLS (mutual TLS) é uma boa prática: tanto o cliente como o servidor apresentam certificados, garantindo que ambos são quem dizem ser. Isto evita que um serviço malicioso se faça passar por um componente legítimo da arquitetura.

5. Boas práticas para usar criptografia em trânsito de forma correta

Apenas “ligar o HTTPS” não é suficiente. Algumas boas práticas importantes:

5.1 Usar versões modernas de TLS e suites fortes

  • Desativar protocolos antigos (SSLv3, TLS 1.0, TLS 1.1);
  • Priorizar TLS 1.2 e 1.3 com cifras modernas (AES-GCM, ChaCha20-Poly1305);
  • Evitar algoritmos e modos considerados fracos ou obsoletos;
  • Aplicar boas práticas recomendadas por guias de hardening de TLS.

5.2 Gerir bem certificados digitais

  • Emitir certificados de autoridades de certificação de confiança;
  • Automatizar a renovação (para evitar expiração inesperada);
  • Proteger chaves privadas associadas aos certificados;
  • Evitar partilha indiscriminada de certificados entre muitos serviços sem controlo.

5.3 Adotar HSTS e boas configurações em aplicações web

  • Ativar HSTS (HTTP Strict Transport Security) para forçar o uso de HTTPS;
  • Redirecionar automaticamente tráfego HTTP para HTTPS;
  • Evitar conteúdo misto (mixed content), em que partes da página são carregadas por HTTP.

5.4 Cifrar também o “tráfego interno”

Evite a ideia de que “dentro do datacenter” ou “dentro da VPC” tudo é confiável. Boas práticas incluem:

  • Usar TLS entre serviços internos e bases de dados, sempre que possível;
  • Proteger filas, barramentos de mensagens e logs sensíveis em trânsito;
  • Tratar a rede interna como um ambiente que pode ser explorado, adotando o conceito de Zero Trust.

5.5 Pensar também no endpoint

A criptografia em trânsito protege o caminho, mas se o dispositivo de origem ou destino estiver comprometido, o atacante pode capturar os dados antes de serem cifrados ou depois de serem descifrados. Por isso, é importante:

  • Manter dispositivos atualizados e protegidos (patches, antivírus, EDR, MDM);
  • Formar utilizadores sobre phishing, malware e golpes de engenharia social;
  • Controlar acessos e privilégios nos dispositivos que manipulam dados sensíveis.

6. Conexão com a LGPD, o RGPD e conformidade

Leis de proteção de dados, como a LGPD no Brasil e o RGPD na Europa, exigem que organizações adotem medidas técnicas e organizativas adequadas para proteger dados pessoais.

A criptografia em trânsito é um elemento central dessa proteção porque:

  • Reduz o risco de exposição de dados pessoais em redes internas e externas;
  • Ajuda a demonstrar diligência em auditorias e investigações;
  • Complementa controlos como autenticação, autorização, registo de logs e monitorização.

Embora a criptografia, por si só, não garanta conformidade, a ausência dela em cenários críticos pode ser entendida como negligência — especialmente quando o risco é conhecido e as soluções estão amplamente disponíveis.

7. Checklist prático: por onde começar

Se a sua organização quer reforçar a proteção de dados em trânsito, use este checklist como ponto de partida:

  1. Mapear fluxos de dados em trânsito
    • Que sistemas trocam dados entre si? (internos, externos, parceiros);
    • Que fluxos envolvem dados pessoais ou informações sensíveis?
  2. Verificar uso de HTTPS/TLS
    • Todos os sites e APIs expostos usam HTTPS?
    • Há redirecionamento automático de HTTP para HTTPS?
  3. Rever versões de TLS e suites
    • Protocolos antigos estão desativados?
    • As suites de cifragem seguem recomendações atuais de segurança?
  4. Reforçar o acesso remoto
    • Colaboradores acedem a sistemas internos via VPN segura?
    • O Wi-Fi corporativo está segregado e protegido com cifragem forte?
  5. Proteger comunicação entre serviços
    • Microserviços e bases de dados usam TLS?
    • Integrações sensíveis com terceiros utilizam mTLS ou equivalentes?
  6. Gerir certificados de forma profissional
    • Há inventário de certificados e chaves?
    • A renovação é automatizada e monitorizada?
  7. Formar equipas
    • Programadores conhecem boas práticas de uso de HTTPS, APIs seguras e bibliotecas de criptografia?
    • Equipas de infraestrutura sabem configurar TLS e VPN com segurança?

8. Conclusão: proteger o caminho é tão importante como proteger o destino

Proteger apenas o servidor ou a base de dados não é suficiente se, pelo caminho, os dados viajarem em texto simples. A criptografia em trânsito é o que garante que informações sensíveis não possam ser lidas ou alteradas por quem está “a escutar” a rede.

Ao combinar TLS/HTTPS bem configurado, VPN seguras, cifragem ponto a ponto onde fizer sentido e boas práticas de gestão de certificados e chaves, a sua organização reduz de forma significativa o risco de fugas e ataques baseados em intercetação.

Num cenário em que privacidade, confiança e conformidade com LGPD/RGPD são diferenciais competitivos, investir na proteção de dados em trânsito deixa de ser opcional e passa a ser um requisito básico para qualquer operação séria no mundo digital.

Dica extra: se já está a evoluir a proteção de dados em trânsito, vale a pena olhar também para a visão completa da jornada dos dados: recolha, armazenamento, utilização, partilha e descarte. Plataformas de governação e controlo de dados pessoais ajudam a ligar a camada técnica de segurança a políticas, registos e transparência para os titulares.

Assuma o controlo dos seus dados pessoais.

Gerencie consentimentos e preferências com transparência – em conformidade com LGPD/RGPD.

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